Conto: Encontro inusitado
- Margarete Bretone

- 23 de abr. de 2021
- 4 min de leitura
Atualizado: 27 de mai. de 2021
Ela ouviu três batidas no vidro do carro, deu um grito seguido de um xingamento (é, ela fala palavrão de vez em quando) pelo susto que tomou e viu duas órbitas verdes e decididas a encararem de volta.
- Preciso falar com você, pode descer do carro? Serei breve.
- Quer me matar de susto? – ela resmungou ao sair do veículo. O homem era mais alto do que ela, mas não a intimidava, sabia bem com quem estava lidando.
- Estava passando por aqui quando te vi e não pude evitar.
- Conta outra, por favor. Desde quando você passa por aqui? Pelo que eu saiba você estava no terminal de desembarque do aeroporto de Guarulhos.
- Estava a caminho do próximo capítulo, mas decidi fazer uma parada não programada antes.
- Você está me seguindo. Isso não funciona desse jeito. – Ela falou colocando as mãos na cintura e encarando-o, desafiadora.
“Por que eu não vim de salto alto, assim ficaria da mesma altura que ele?” Perguntou-se e em seguida descartou a possibilidade, afinal para que precisaria de salto alto para ir a aula de ioga?
- Tem ideia do que eu tenho passado? Você não se cansou de me fazer sofrer? Dá um jeito nessa merda, porque estou no meu limite. – Ele pediu em um misto de ansiedade e desespero.
- Vamos esclarecer algumas coisas aqui. Primeiro - não fui eu que (censurado – continha spoiler). Segundo - você não pode vir atrás de mim para me pressionar. Terceiro - outro susto desse e eu coloco um cara gostoso na vida da Laura e você fica para escanteio. Entendeu? – estava tocada pelo sofrimento que ele não conseguia esconder, no entanto, precisava deixar claro quem mandava ali e essa pessoa não era ele.
- Você é a escritora. Foi você que me induziu...
- Pode parar, Gustavo. Sou só um instrumento, se escrevi aquilo é porque você pediu, aliás você é daqueles que não pedem, exigem. Aceite isso.
- Então estou te pedindo. Me ajuda. Por favorzinho. – Gustavo falou e colocou as mãos em forma de prece em frente ao rosto fazendo cara de cão abandonado na rodoviária o que arrancou um sorriso do rosto da mulher a sua frente.
- Vou ver o que posso fazer por você e não me siga mais. Tem noção do que um autor pode fazer?
- Mas você acabou de dizer que é apenas um instrumento. Que conversa foi aquela então?
- Eu menti. – Ela sorriu com deboche e ergueu uma sobrancelha.
- Melhor eu ir então. – ele falou e começou a caminhar em direção ao carro dele.
- Ótimo.
- Mas antes, preciso te entregar isso. – Gustavo voltou-se para ela e entregou um envelope pardo.
Ela abriu o envelope, retirou uma carta de lá de dentro e leu-a atentamente.
- Isso é sério? Uma notificação extrajudicial? Meu pai é desembargador, meu marido e meu irmão são advogados, quer mesmo me entregar isso? – Tudo mentira, mas ele não precisava saber disso, certo? Blefar às vezes funciona...
- Eu estou sofrendo e eles também. Então, se você continuar agindo assim, serei obrigado a entrar em litígio com você.
- Vocês personagens não tem noção de nada mesmo. Já se imaginou terminando uma história, a sua história – ela falou apontando para o peito de Gustavo, fingindo irritação - enquanto outros personagens ficam buzinando na sua cabeça?
- Não mandei você parar de escrever a história deles. Me compadeci, oras. Eles estão fugindo de moto há tempo demais.
- Só para que você entenda, eles já encontraram abrigo, foram alimentados e tem onde dormir. Não tem do que reclamar. Quando eu puder retomo a história deles.
- Você está terminando o segundo livro e esqueceu-se deles e pelo que entendi, eles tinham o direito de ter a história completa muito antes da Estella, do Artur ou mesmo eu. – Gustavo assumira seu lado profissional deixando de lado o sofrimento e dando lugar a um advogado compenetrado negociando um acordo.
- Eu sei, Gustavo. Acontece que não consegui. Pode dizer que eles moram no meu coração e logo retomarei a escrita, no entanto, muita coisa vai mudar.... Ei, como você falou com eles? Eles nem são daqui.
- Você tem seus segredos, nós, seus personagens, temos os nossos.
Pegou-se analisando a declaração dele e imaginando o que eles eram capazes, “temos os nossos segredos”. Será que existiria uma sociedade secreta de personagens? Uma reunião semanal? Quais seriam os assuntos em pauta?
- Você precisa se alimentar melhor, rapaz. Perdeu peso em tão pouco tempo. – melhor parar de devanear, já era demais ser abordada por um de seus personagens, quanto mais vê-los reunidos...
- Culpa sua, minha cara.
- Tá, já entendi. – Levantou as mãos em sinal de rendição, estendeu a carta para ele e concluiu – Leva essa porcaria embora, vou resolver a sua vida primeiro e depois a deles. A não ser que prefira que abandone você a caminho do próximo capítulo...
- Não, não. Para mim está ótimo e esteja avisada, se não retomar a história da menina do cabelão, te processo por abandono de incapaz.
- Abandono de incapaz? – ela perguntou e soltou uma gargalhada.
- Claro, eles não tem a capacidade de continuar a história sozinhos, só você pode. Não duvide de mim.
- Isso é uma ameaça? – Ela perguntou cerrando os olhos e encarando-o em desafio.
- Nunca. – Gustavo falou erguendo as mãos em um ato defensivo, entrou no carro, saiu rapidamente e buzinou provocando a mulher que ficou parada olhando o carro se distanciar e balançando a cabeça negativamente inconformada com a ousadia do fulano.
- Não volte mais, seu maluco.







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