Conto: A montanha
- Margarete Bretone

- 28 de nov. de 2022
- 2 min de leitura

A cortina fazia um importante papel, o de ser capaz de camuflar a presença de alguém logo ali. Puída, esburacada e cheia de pó e, mesmo assim, ele observava o desenho intrincado de arabescos que não tinham começo nem fim.
Ele não deveria demorar, mas, naquele local praticamente destruído, tudo chamava atenção ao olhos. E eles não paravam. Variavam dos arabescos, para a parede com um quadro tão chamuscado que não era possível definir o que retratava, conseguia ver parte de uma roda de bicicleta e… será que mostrava uma garotinha sorrindo sobre o selim, cabelos esvoaçantes em um dia de verão? Nunca saberia dizer.
Sequer entendia a sensação que peças destruídas lhe causavam. Nostalgia, talvez.
A atenção devia estar voltada para a enorme montanha ao fundo, ao movimento nos arredores, mas respirou fundo pela péssima escolha do local. Baixou os olhos e prendeu a respiração, aquilo estava intacto, como?
Agachou, esgueirando-se, ainda atrás da cortina de arabescos e a mente foi longe. O copo de vidro estava inteiro em meio ao caos, aquilo bem que poderia ser um aviso que tudo ficaria bem, pura ilusão.
Então ele ouviu, bem baixinho, era sempre assim. Caminhão do gás, ouviu alguém dizer, sem entender direito o que significava. Era uma música e ela tinha um significado irreversível.
Não teve tempo, sequer de erguer os olhos e observar seu algoz. Aquela montanha, aquele local vigiado era intransponível, era sinônimo de vida, mas quem queria alcança-la só encontrava desespero. Ali, todos eram o inimigo e, por isso, precisava ser destruído.
Começou com uma vibração, o copo rolou e então a explosão. Foi jogado para longe e jurou ter visto uma bicicleta, a menina realmente sobre ela e…
Escuridão.






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